segunda-feira, 25 de maio de 2020

Palavras confinadas...

Desconfio em desconfinar...
Percorro as esplanadas de carro e olhos postos no desconfinamento dos outros, bem menos desconfiados que eu.
Apetece-me fazer o mesmo.
Mas paro, paro por mim e paro por ti. Paro por Nós.

Confirmo que nada é aqui, não permanecemos em nada, nem por nada. Somos apenas visitantes alienados de nós. 

Confinados, confiantes que temos liberdade de escolher o nosso destino. Ignorando o que não queremos ver.
Cegamos egoístas, a achar que o tempo, tem tempo.
Voltamos a nós e às máscaras que caindo, desmascaram a fragilidade onde habitamos agora.
Caímos sozinhos, mas juntos, numa fragmentação que nos une.

Com os pés na areia volto a mim, ouço o meu respirar e o mar, o mar... Comovo-me apenas por senti-lo ali, comigo, de novo.
Salgo a alma num mergulho feliz. Comovo-me de novo. Talvez o volte a ver amanhã, ou talvez, não seja possível voltar tão depressa... Não sei, nunca soube, mas agora tenho a certeza. Não sei nada.

Apenas que aqui estou e tenho o mar, agora tenho o mar.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Palavras com Abril...

Sou feita de Abril.

Do Abril que dança e que leva os outros com ele.
Filha do Abril da chuva e dos dias na praia.
Abril dos afectos e dos braços abertos.
O Abril livre que canta.
Abril de cravo no peito e de peito aberto.
O Abril que inspira e respira nas palavras que não diz.
Abril impulsivo, frenético e pulsante.

Dizem que o meu Abril foi adiado.
Recuso-me a mudar para outro mês e atrevo-me a ser filha deste Abril suspenso.
A Primavera veio na mesma, ainda que só a sinta de leve, breve, instante.
Mas ela veio com Abril.
Este Abril que não me leva os sonhos eque não me enfraquece as crenças.
O Abril que me faz parar. Escutar. Ser.
Aquele que nunca vamos esquecer.
Este Abril que nos afastou para nos voltar a unir.
Abril de mãos lavadas e de lavar as mãos.
Inquieto e incerto.
O Abril que nos querem roubado.
O Abril do nosso recolhimento.
Aquele Abril em que todos disseram que ia ficar tudo bem, sem saberem ainda o que queria dizer.
Diz-me este Abril antes de partir que..."Ser livre, está para além de Abril e das paredes que nos confinam."
Por isso, irmãos de todos os meses, amanhã... Seremos Abril de mãos dadas.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Palavras com Caminhos...


Caminho sozinha na certeza porém que a todos encontro no caminho. Começo por procurar o trilho para não me desviar muito ou perder. Já me perdi muitas vezes e apesar de não ter sido mau de todo, caminhar sem destino e sem os passos guiados, confesso que hoje prefiro seguir o trilho, pelo menos estes que a natureza nos oferece e outros se asseguraram que o farás seguro também. 

Caminho de encontro ao que hoje sou, não deixando fugir a inocência da criança que fui e trazendo-a comigo a cada momento em que ainda me deslumbro... e deslumbro-me tanto ainda. No caminho vão chegando um por um... Encontro a minha irmã que solta uma gargalhada quando me intriga se aquelas castanhas que apanhei já estarão boas para comer e se para as cozinhar será preciso mais alguma coisa para além da água e do sal... Continuo o caminho e nos únicos sons indecifráveis que ouço, lembro os sobrinhos e a aventura que seria fazer estas caminhadas com eles, interrogo-me se não é este o tempo de o fazer, antes que cresçam demais... Podemos  tentar descobrir o nome das árvores que para nós ainda não têm nome porque não as descobrimos juntos. Sorrio por isso. Isso, e a eminência de ter um encontro imediato com um animal selvagem e pouco ou nada saber sobre a forma de agir para além de me fazer de morta e esperar que ele apenas queira um abraço ou uma festa, ou coisa nenhuma e espere que o ignore, como aliás, eu pretendo também. 

Sinto a chuva que cai e lembro-me da amiga a quem disseram que não era feita de açúcar num passeio à chuva, num país que não conhecia. Paro um pouco e observo dois pássaros brincalhões que me acompanham há horas (ou pelo menos eu acho que sim) e recordo todos os que já partiram e que já não estão por aqui, sorrio de novo. Sei-os comigo. 

Continuo o caminho por um trilho difícil que começa a dizer-me que talvez me tivesse afastado do principal. Volto para trás e dou uma gargalhada por continuar a deixar que a minha teimosia me leve por caminhos complicados. Nos passos que se querem firmes por vezes tropeço e tenho a memória do pai que me dá a mão para que eu não caia e lembro que tenho de lhe dizer mais vezes que ele é e será sempre um dos meus melhores amigos. Mesmo quando é teimoso e não me dá razão. Sigo deslumbrada com a chuva que me cai em cima e todas as cores do Outono, com o cheiro da terra, com os medronheiros, as bolotas caídas no chão e os cogumelos que não consigo identificar. Penso na minha mãe, no quanto gosto dela e nas conversas que ainda precisamos de ter, nem sempre lhe contei tudo, mas neste caminho recordo o que ainda preciso que ela saiba. Sei que a vida nos dará esse tempo e volto a sorrir. 

Embrenho-me pelo bosque e apetece-me cantar, sinto comigo todos aqueles que me acompanham ao ritmo do som pulsante dos dias felizes, são tantos... Os pássaros brincalhões continuam comigo e no meio da chuva aparece uma borboleta vinda não sei de onde que insiste em caminhar ao meu lado. Vejo a minha Mestre e o meu coração enche-se de Amor. Por vezes desanimo porque apetecia-me um trilho maior, mas nesta altura do ano fica escuro cedo e ficar perdida não está nos planos, encolho os ombros e resigno-me com alegria, ao caminho escolhido. Agora a floresta funde-se com o rio e todos os cheiros do Outono impregnam-me a alma. Sou feliz e sei. A chuva dá tréguas e o sol aparece, deixando aparecer também, um arco-íris desenhado que reflete na água e faz dois. Pergunto-me quão abençoados somos sem dar conta... 

Regressa a chuva e com ela uma subida, seguida de um caminho rural com alguma lama, escorrego e sujo as botas... Penso nas minhas amigas que estão a experimentar a maternidade, a escorregar e a levantar da lama os seus rebentos, a escalar as montanhas de emoções que ainda não dominam e sei que vai correr tudo bem. Que também elas serão capazes de subir montanhas e de ajudar nas quedas, não evitando que caiam e se sujem de lama. Sabendo rir das imperfeições e serem o melhor que conseguem, sem culpas. 

Cheguei a uma pequena povoação, achava que finalmente iria encontrar as pessoas, mas apenas me cruzei com meia dúzia de cães que guardavam as casas e umas cabras que pastavam e olhavam para mim à falta de algo melhor para fazer. Ouvi uma voz interior que me disse que havia ainda tantos sonhos para realizar e que havia quem já não o pudesse fazer. Não acreditei. Abracei por momentos aqueles que se achavam nessa condição e disse-lhes que os sonhos eram a força de que precisavam para continuarem a lutar e já agora, a sonhar. 

Voltei ao bosque e a mim. Caminho sozinha, mas comigo caminham todos vocês. Grata à vida por não me deixar só, mesmo quando lhe peço muito. Grata a mim por saber estar comigo. Grata a vocês por me acompanharem sempre. Namasté!

Note to self: antes de sair de casa, confirmar que tens sempre uma caneta na mala.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Palavras com Amanhecer...

Amanheço desajustada num tempo de recomeços tardios que não tardam. No barulho das horas rápidas de vultos com pressa de fugir deles mesmos, abrando e tento ouvir o que não ousam dizer em voz alta. Falam do medo... 
Falam do amor e da falta dele, dos bloqueios em que se afogam, de solidão... 
Falam da imensidão da falta de tudo...
Atropelam-se nas suas vozes roucas de quem quer ser ouvido, sem se ouvirem sequer por um instante.
Renunciam ao silêncio. 

Gritam alto sobre coisa nenhuma, esvaziando de sentido os sons da verdade, interdita aos que ousam ouvir-se. 
Omitem que apenas precisam de ser. Ser o que são. Ser. Simplemente, ser.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Palavras com Mar...

Lembro-me do Mar que se fazia distância, aproximando os incautos pescadores do abismo da sorte, levando-os pela mão ao início da Morte.
Lembro-me de morrer sem saber se vivi, se escolhi assim, ou se me esqueci.
Lembro-me de dias cinzentos e de lançar o anzol, numa espera fortuita de um beijo do sol.
Lembro-me de sons de cristal e de peixes vorazes por gotas de sal.
Lembro-me das forças contrárias, destinadas a destinar e de destinos perdidos e por encontrar.
Lembro-me do que me lembro, sem ter saído daqui.
Lembro-me do que esqueci, no dia em que morri...

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Palavras contigo...

Sobras-me tu. No silêncio das tardes eternas, sobras-me tu.

Nas ruas que percorro sozinha, sobras-me tu.

Nos pequenos momentos que se enchem de vazios sem sentido, sobras-me tu.

Em todos os caminhos que me guiam a lado nenhum, sobras-me tu.

E quando olho em redor e os silêncios me preenchem, sobras-me sempre tu.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Palavras com Ilha...


Pinta-me um quadro a que eu chame de meu, 
que retrate as ondas e o azul do céu.

Dá-me uma ilha perdida no mar.
Abraça-me de novo… lembra-me de sonhar.